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Playlist terapêutica: Quando a música contribui para o equilíbrio emocional

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A sugestão de ter uma playlist como terapia para iniciar ou terminar o dia pode parecer trivial. Afinal, estudos comprovam a eficácia da arte como válvula de escape para dias estressantes ou complicados. Além disso, a música é um recurso que atinge cerca de 95% das pessoas de modo tão pessoal que, não curti-la, gera uma condição chamada anedonia.

E, certamente, você passa por isso: A caminho do trabalho ou na volta dele, dá play na rádio ou em um álbum para tentar desacelerar ou mudar o humor. Pois saiba que não é acaso. É neurobiologia.

Isso porque a música age no sistema nervoso central e estimula a liberação de dopamina, serotonina e endorfinas – os neurotransmissores diretamente associados à regulação do humor, ao prazer e ao bem-estar. Para quem trabalha sob metas, auditorias e pressão constante por resultados, esses nomes valem ouro.

Mas nesse conteúdo, vamos abordar esses momentos de descompressão analisando-os um pouco além do contexto de fuga ou reativo. E posso adiantar um ponto fundamental que muitos desconhecem: é possível extrair do ato de ouvir música ou montar uma playlist um mecanismo de rotina de equilíbrio mental.

Acompanhe e veja como fazer isso.

Perguntas frequentes sobre playlist para o bem-estar emocional

Sim. A música destaca-se como uma estratégia acessível e não invasiva para modificar estados afetivos e modular nossos parâmetros de humor. Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), entendemos que o ambiente influencia diretamente a regulação emocional; logo, diante de uma alta pressão por metas, uma playlist bem estruturada pode atuar como um “dividendo emocional”, ajudando a ancorar a atenção e reduzir os estímulos estressores da agência.
O segredo é praticar o que chamamos de “escuta moduladora”, ou seja, utilizar músicas para mudar intencionalmente o seu estado emocional. Você não precisa sair de um dia frenético direto para o silêncio absoluto; a transição deve ser gradual, começando com músicas que reflitam o ritmo agitado e migrando para melodias mais relaxantes antes de dormir, o que facilita a transição emocional. É como amortizar um cansaço acumulado.
Não. Embora intervenções com musicoterapia demonstrem efeito médio a grande na redução do estresse, nenhuma música evita a Síndrome de Burnout, que é causada pela sobrecarga e pela exigência de adaptação a um ambiente de trabalho além da capacidade de recuperação do indivíduo. Músicas com ritmo mais intenso podem, de fato, elevar a energia de curto prazo, mas a prevenção do esgotamento requer imposição de limites e acompanhamento psicoterapêutico.
Sim. Pesquisas recentes sugerem um efeito “dose-resposta”, indicando que ouvir música por períodos em torno de 30 a 36 minutos gera benefícios significativamente maiores na redução da ansiedade e afetos negativos. Encare esse tempo como um investimento de renda fixa no seu bem-estar diário: é uma janela curta, mas necessária para o sistema nervoso colher os resultados.
Não necessariamente. Na TCC, compreendemos que fugir das emoções negativas quase sempre agrava a tensão psicológica. Ouvir uma música melancólica pode, em muitos casos, ajudar a pessoa a nomear o que sente, validar a frustração do dia e facilitar a liberação emocional. É como registrar um prejuízo de forma clara no balanço para que, então, seja possível fechar o caixa e iniciar o dia seguinte com mais lucidez.

A melodia que afina sentimentos e emoções

Um estudo publicado na PLOS ONE(2013) investigou o efeito da música na resposta humana ao estresse e identificou diferenças significativas nos níveis de cortisol entre quem ouvia música antes de uma situação de pressão e quem não ouvia. Em síntese, o cortisol – o hormônio do estresse – é como uma dívida que vai acumulando juros ao longo do tempo. A música, nesse contexto, funciona como uma liquidação antecipada.

Além disso, revisões sistemáticas publicadas na National Library of Medicine (NIH) concluíram que cantar, ouvir música ou adotar práticas como a musicoterapia pode criar melhorias significativas na saúde mental. Ou seja, pessoas com maior envolvimento com música apresentaram menores tendências a quadros de depressão, ansiedade e estresse – sugerindo que a música atua também como fator protetivo.

E a TCC, abordagem que utilizo no meu trabalho? Um estudo publicado na revista Educação e Psicologia(2020) concluiu que o uso da música dentro da Terapia Cognitivo-Comportamental apresenta bons resultados no tratamento de sintomas de ansiedade e aspectos cognitivos disfuncionais.

É mais uma ferramenta – e ferramentas, quando bem usadas, ampliam o que você consegue construir.

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Uma observação que precisa anteceder as dicas

Parece óbvio, mas é necessário pontuar: Uma playlist é uma aliada relevante, mas não é uma solução isolada. Assim como nenhum ativo financeiro resolve sozinho um portfólio mal estruturado, nenhuma playlist substitui um acompanhamento profissional quando o estresse deixou de ser pontual e se tornou crônico.

Sendo assim, se você reconhece que o desgaste emocional está acima do que uma boa faixa resolve, esse é o sinal para buscar apoio especializado.

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5 formas de extrair o melhor da música no seu dia

As orientações e dicas a seguir não são regras fixas mas possuem comprovação científica. Ainda assim, ao elencá-las, sinta-se livre para pequenas adaptações conforme a sua rotina. Todavia, recomendo para extrair o melhor delas, que inicie sua experiência pessoal anotando e validando os resultados que obtiver. E, claro, você é bem-vindo se quiser compartilhar alguns deles aqui, conosco.

1 | Use a música como transição, não como fundo

O trajeto entre trabalho e casa é um intervalo estratégico. Em vez de continuar checando mensagens enquanto ouve algo no automático, experimente ouvir intencionalmente – sem tela paralela. Esse intervalo funciona como uma janela de descompressão cognitiva, ajudando o cérebro a sair do modo de alerta e começar a redirecionar recursos para o descanso.

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2 | Ajuste o ritmo ao que você precisa – não ao que você sente agora

Tem uma lógica contraintuitiva aqui: quando estamos no pico do estresse, tendemos a buscar músicas que “combinem” com o estado emocional –  agitadas, pesadas. Contudo, há estudos científicos que apontam outro caminho.

Ou seja, músicas com andamento lento, harmonia consonante e ausência de letras estimulantes são as que mais favorecem o relaxamento e a redução do estresse. É como investir contra o movimento do mercado – às vezes, a estratégia certa é não se deixar levar pelo óbvio. E não digo aqui que aquele rock furioso, um pop com um refrão memorável ou aquele samba irresistível estão proibidos.

A proposta é apenas deixá-los para um outro momento (Que tal no pré-happy hour ou no final da sexta?) onde você pode ter maior controle das emoções e expectativas? Aliás, se não sabe por onde começar, faça o quiz abaixo e receba algumas dicas personalizadas para começar a montar a sua própria playlist?

Processando novos ritmos…

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Sua playlist de regulação emocional:

Ouvir no Spotify

3 | Crie playlists com intenção

A próxima dica é montar playlists para finalidades diferentes: uma para foco (trabalho concentrado), uma para transição (saída do trabalho), uma para descanso ativo (jantar, leitura). Isso porque essa separação treina o cérebro a associar cada contexto sonoro a um estado mental específico – um condicionamento positivo que a TCC reconhece como eficaz.

4 | Considere tocar um instrumento — mesmo que mal

A literatura mostra que o envolvimento ativo com música – não só ouvir, mas praticar – está positivamente associado ao enfrentamento e à regulação emocional. Não estamos falando de virar músico. Em resumo, estamos falando de 15 minutos com um violão desafinado na sala. O processo importa mais do que o resultado.

E se duvida, compartilho com vocês o meu mais novo hobbie que, após tantos anos, decidi tirar da gaveta e explorar de modo pessoal. (É claro que, se um dia eu virar o novo Bob Dylan, não irei achar ruim).

5 | Use música antes de uma situação estressante, não só depois

Sabe aquela reunião difícil às 9h? Ou então a call com a superintendência? O estudo da PLOS ONE(2013) mostrou que ouvir música antes de uma situação de pressão pode influenciar positivamente a resposta fisiológica ao estresse. Cinco a dez minutos de uma música que te coloca em estado de equilíbrio antes de momentos críticos pode ser uma preparação mais eficiente do que você imagina.

Ou seja, uma boa playlist é um plus interessante para o bem-éstar.

Passo a passo | Como pedir reembolso de psicólogo para bancários

Música exige atenção: Use isso para o dia a dia

A música não precisa de receita médica, não tem fila de espera e não cobra por sessão. O que ela pede é atenção – e atenção, ironicamente, é exatamente o que o ambiente bancário mais drena de você. Então, se você chegou até aqui, talvez já saiba que precisa de mais do que uma playlist. E quando estiver pronto para conversar sobre isso com mais profundidade, não abra mão de um profissional da sua confiança.

Fontes:

  • Carmo & Colacite (2023) via Revista FT; Pereira et al. (2012);
  • Pepsic/Unisinos; Marques (2017) via Revista de Música USP;
  • Semenza (2017) via Revista Contemporânea; Khalfa et al. apud PLOS ONE (2013);
  • Revisão NIH/National Library of Medicine citada por Medicare.pt
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