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Os 12 arquétipos de Jung e a TCC: Como olhar além deles e não se prender a rótulos

Há muitos anos, os arquétipos de Jung despertam curiosidade e isso não acontece por acaso. Afinal, além de serem estruturados pelo psiquiatra e psicoterapeuta suíco que fundou a Psicologia Analitica, eles figuram em um contexto que busca responder a grande pergunta da existência humana: Quem sou eu?

Contudo, sem aprofundar em uma abordagem que não faz parte da minha área de atuação, esse conteúdo busca explicar os arquétipos de Jung sob a ótica da Terapia Cognitivo-Comportamental. Ou seja, considerando a real aplicação destes padrões no dia a dia e esclarecendo o que é mito, onde ambas as teorias se convergem e, principalmente, os cuidados em não usar dessa ferramenta de reflexão como se fosse uma etiqueta fixa.

Acompanhe comigo e boa leitura!

Spoiler: Tente ler e absorver esse artigo no seu tempo e vá com calma no conteúdo. Aos que não tiverem pressa ao percorrer pela página, há uma pequena surpresa após 5 minutos por aqui.

Perguntas frequentes: Os arquétipos de Jung

Não. O uso de arquétipos ocorre como referência simbólica e linguagem de reflexão, mas isso não equivale a diagnóstico psicológico. Na Psicologia, diagnóstico e avaliação exigem finalidade clara, contexto e critérios técnicos compatíveis com a prática profissional.
Não dessa forma popularizada hoje. Em resumo, a versão dos “12 arquétipos” foi organizada e formatada por áreas como marketing e branding para facilitar o uso de personas e público-alvo. Já a formulação junguiana é mais ampla, simbólica e não se fecha em uma lista definitiva.
A TCC não tem os arquétipos como núcleo técnico da abordagem. Ainda assim, o tema pode aparecer como recurso de reflexão quando ajuda a observar padrões de pensamento, crenças e comportamento, sem transformar a pessoa em um rótulo fixo.
Porque a rotulação transforma uma característica, um erro ou um comportamento em definição total da pessoa. Na prática, isso reduz nuance, reforça filtros mentais e dificulta enxergar mudança, contexto e complexidade.
Pode, desde que o objetivo seja ampliar consciência sobre padrões sob pressão, e não enquadrar pessoas em personagens prontos. Em um cenário em que depressão e o burnout no trabalho já têm impacto real na saúde e na rotina profissional, qualquer ferramenta de reflexão precisa ser usada com responsabilidade, contexto e humanidade.

O que são arquétipos segundo Jung

Carl Gustav Jung foi um psiquiatra e psicólogo suíço, fundador da psicologia analítica, e associou os arquétipos à ideia de inconsciente coletivo. Em termos simples, ele propôs que certos padrões simbólicos universais aparecem repetidamente em mitos, narrativas, imagens, sonhos e comportamentos humanos.

Em síntese, na formulação junguiana, arquétipos não são “tipos de personalidade” prontos como quem escolhe uma categoria em formulário. Na verdade, eles funcionam mais como matrizes simbólicas, tendências amplas de organização da experiência humana, que podem se manifestar de formas diferentes conforme cultura, contexto, história de vida e fase existencial.

Porque rotulamos todos à nossa volta

Em uma analogia com bancários ou profissionais de alta performance, pode-se dizer que os arquétipos são como pequenos rótulos que costumamos colocar em alguns cargos ou perfis. Por exemplo, o estagiário que sempre comete erros, o gestor autoritário, o novato inexperiente ou o funcionário antigo pouco dedicado.

E, assim como eles, é impossível validar essa tentativa de rotulação com alguma comprovação científica. De modo geral, a Terapia Cognitivo-Comportamental explica que os rótulos funcionam como esquemas cognitivos. Em outras palavras, são atalhos mentais que simplificam a realidade para poupar esforço do cérebro.

Mas o problema quando fazem isto é que tal comportamento pode se tornar crenças limitantes a ponto de gerar distorções que ignoram a complexidade individual. Ou como explica Judith Beck, em sua obra fundamental Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática: considerar rótulos nos leva a moldar categorizações a partir de crenças nucleares.

Rotulação no contexto bancário: Hora de descobrir seu arquétipo

No dia a dia do profissional que trabalha sob alta pressão – como bancários – colocar rótulos sociais acontece com frequência. Isso porque a rotina costuma pedir uma leitura rápida para maior eficiência no atendimento. Porém, leitura rápida não é sinônimo de leitura correta. Veja alguns exemplos e responda, sinceramente, quais já realizou:

  • Um cliente entra de chinelo e roupa simples e, na pressa do dia a dia, você pensa: “esse não tem perfil para investimento”;
  • O novato faz duas perguntas básicas, e logo surge o rótulo: “é inexperiente demais”. Isso, mesmo se ele tiver um currículo mais experiente do que o seu;
  • Um cliente mais direto, que fala pouco e vai ao ponto, acaba por ser percebido como “arrogante” ou alguém que nunca irá aceitar os serviços que você precisa vender.

E aqui damos nossa primeira pausa no texto e, de modo prático, te convido para um quiz que compõe nossa página Modo Avião e, de modo lúdica, aborda como nos vemos dentro dos 12 arquétipos de Jung e como, hipoteticamente, alguns de nossos comportamentos poderiam soar segundo a estrutura deles.

Após fazê-lo, é só finalizar e você irá retornar a esse ponto do texto.

Match do arquétipo (Jung)

Fatos e mitos sobre os arquétipos

Gostou do seu resultado ou não foi bem o que você esperava? Pois tenho que dizer que, independentemente de qual foi, ele é, no máximo, apenas um pequeno ativo na sua carteira de investimentos. Ou seja, não faz qualquer sentido defini-lo – ou melhor, limitá-lo – se a lógica humana é como uma grande diversificação financeira.

E, assim como é preciso conhecimento, análise e aprofundamento no mundo dos negócios, quando o assunto é a mente humana, qualquer simplificação pode ter um resultado arriscado. No caso, o que a TCC chama de crença nuclear, que é quando a mente passa a operar como se uma conclusão sem contexto fosse fato, e não hipótese.

Pontuando, mais uma vez, dentro do universo dos bancários, eu diria que é o mesmo que acreditar que transferir todos os investimentos para um único ativo de renda variável. Isso porque, num único dia, ele teve alta rentabilidade na B3.

 Por isso, quando alguém diz que “existem apenas 12 arquétipos”, não só contrapõe o estudo feito por Jung como simplifica equivocadamente a formulação original do psiquiatra.

A visão instagramável do arquétipos de Jung como passatempo

De modo geral, dá para dizer que o verdadeiro criador do sistema que conhecemos como 12 arquétipos seriam Margaret Mark e Carol Pearson, e não Jung. Isso porque foram as duas especialistas em Branding e Marketing que formataram esse conceito em 2001, no livro O herói e o fora da lei. Aliás, na obra Os arquétipos e o inconsciente Coletivo, o próprio Jung pontua:

“Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. A repetição incessante gravou essas experiências em nossa constituição psíquica. Estes são complexos de vivência que sobrevêm aos indivíduos como destino e seus efeitos são sentidos em nossa vida mais profunda”. 

Ou seja, a divisão contemporânea e “instagramável” que reduz os arquétipos a caixas rígidas de comportamento serve apenas como um passatempo superficial. Em síntese, não há problema em usar quizzes, testes e jogos como ferramentas lúdicas (assim como fizemos no game acima). Todavia, eles nunca devem ser tratados como regras absolutas.

O real papel dos arquétipos para a TCC

Quando a abordagem dos arquétipos de Jung estão sob a ótica da Terapia Cognitivo-Comportamental, é possível afirmar que, a depender do caso, ela funciona tão somente como um possível ponto de partida. 

Isso ocorre porque, embora a imagem arquetípica ilustre como o paciente se enxerga (como o “heroi”), o foco da TCC permanece na identificação e reestruturação de crenças centrais e esquemas desadaptativos

Sendo assim, a partir desse mapeamento simbólico inicial, o terapeuta direciona a intervenção para metas claras e modificação de pensamentos automáticos. Para, por fim, promover a flexibilidade cognitiva e a ativação comportamental, e não a profundidade da análise do símbolo.

O que a TCC diria sobre arquétipos, padrões e rótulos

Diferente até de parte do contexto do nosso primeiro quiz, a TCC não costuma usar arquétipos como eixo técnico central da sua prática. Ainda assim, pode dialogar com o tema de forma muito útil desde que o trate como linguagem de observação, e não como sentença sobre identidade.

Ou seja, em vez de perguntar “qual arquétipo você é?”, uma leitura que se alinha à Teoria Cognitivo-Comportamental perguntaria algo como:

  • Que padrão aparece com mais frequência quando você está sob pressão?
  • Que pensamentos automáticos costumam se ativar nesse contexto?
  • Esse padrão protege, limita ou faz as duas coisas ao mesmo tempo?

Essa mudança de foco faz diferença porque desloca a conversa da essência fixa para o funcionamento real. E, vamos combinar, o funcionamento real é sempre mais honesto do que personagem fixo.

O que significa, por exemplo, que uma pessoa pode entrar em modo “herói” quando tudo aperta mas assumir o controle quando sente risco. Ou mesmo agradar para evitar conflito, usar o humor para aliviar a tensão ou endurecer para não se sentir vulnerável. Afinal, ninguém “é só uma coisa”.

O que arquétipos de Jung podem ajudar a enxergar

Se o uso acontecer com maturidade e fundamentos éticos, é possível que a definição de arquétipos ajude a nomear tendências sem aprisionar. Dessa forma, acabam servindo como porta de entrada para reflexões importantes como as que listamos a seguir.

1 ) Como você costuma reagir quando perde o controle

Primeiramente, deve-se pontuar que arquétipos são recursos insuficientes para explicar qualquer sofrimento psíquico. Contudo, como padrões costumam ser mais visíveis em ambientes de alta exigência, padrões ficam mais visíveis, observá-los pode fornecer ao psicólogo um repertório inicial de análise. Isso, claro, se houver contexto e cuidado.

2) Que papel você tenta ocupar nas relações

Alguns padrões surgem como tentativa de manter pertencimento, aprovação, controle ou segurança. Por isso, em linguagem cotidiana, buscar aprofundar em frases arquetípicas como: “eu sou o que resolve” ou “eu sou o que cuida de todo mundo” pode auxiliar na avaliação psicológica sobre o que é função e o que é identidade de uma pessoa. 

3) O que esse padrão custa hoje

Em meados dos anos 1990, cerca de 70% da população brasileira chegou a guardar toda sua reserva financeira na caderneta de poupança. Isso porque, naquela época, era um investimento simples, seguro e com rentabilidade razoável. Porém, atualmente, esse número não passa de 23%.

Por outro lado, o número de pessoas físicas com investimento na Bolsa de Valores saltou nos últimos 20 anos de 85 mil para 5,5 milhões. E o que isso tem a ver com os arquétipos de Jung? Basicamente porque eles funcionam da mesma forma e exigem adaptabilidade às mudanças internas ou externas que nos acompanham pela vida.

Em síntese, qualquer tentativa de consolidar uma análise comportamental ou de personalidade como imutável pode cobrar um alto preço. Afinal, todos somos impactados de maneira única por cada contexto, fase de vida, relações, aprendizado, esgotamento, autoconsciência e tratamento pelos quais passamos.

Por isso, uma leitura ética dos arquétipos precisa preservar as três ideias abaixo.

  1. Nenhum arquétipo esgota uma pessoa, afinal, toda pessoa é maior do que qualquer narrativa sobre si;
  2. O mesmo padrão pode aparecer por motivos diferentes. Ou seja, duas pessoas podem parecer controladoras, por exemplo, mas uma agir a partir de medo de erro e outra a partir de insegurança relacional;
  3. Padrão não é destino e, na TCC, o fato de um existir não significa que ele precise comandar a vida da pessoa para sempre.

Como falar de arquétipos sem perder a ética

Para concluir, é possível listar alguns dos enquadramentos no uso dos arquétipos de Jung na TCC que se mostram eticamente responsáveis, como:

  • Representarem um linguagem simbólica de reflexão;
  • Nunca substituírem a avaliação psicológica;
  • Não serem decisivos para fechar um diagnóstico;
  • Não serem usados para reduzir alguém a um perfil pronto.

Logo, eles fazem mais sentido quando abrem perguntas do que quando entregam sentenças. Principalmente quando se considera que eles podem até ser ferramentas interessantes, reveladoras ou divertidas, mas a parte mais importante vem depois: observar como aquele padrão aparece, o que ele tenta proteger, que crenças o mantém ativo e quanto ele ajuda ou atrapalha a vida real.

É aí que a reflexão deixa de ser estética e começa a ser útil.

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Fontes utilizadas

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