A comunicação de suicídio – e a forma como a mídia pode e deve abordar o tema – ainda é pouco compreendida por grande parte da população. Para quem cresceu nos anos 1990, a mudança no tratamento do assunto pode dar a impressão de que ele se tornou um tabu.
Essa percepção faz sentido para quem acompanhou telejornais transmitindo cenas dessa natureza ao vivo, revistas publicando cartas de despedida ou comentaristas emitindo opiniões pessoais sem o devido contexto de especialistas.
Para ampliar uma conversa necessária, este é o tema do Especial Setembro Amarelo. A proposta não é colocar essa pauta acima de outras discussões importantes da campanha, mas reconhecer que suicídio, saúde mental, luto e sociedade envolvem complexidades que não cabem em explicações rápidas ou conclusões simplistas.
Se você chegou até aqui, fica o convite para refletir, compartilhar conhecimento e enviar dúvidas sobre o assunto. Embora o especial vá além da minha atuação em terapia para bancários, ele busca contribuir para que informações sobre prevenção sejam difundidas com responsabilidade e ética.
Acredito que uma linguagem precisa, responsável e verdadeiramente humana ajuda a promover cuidado sem transformar sofrimento em espetáculo. Também ajuda a dar ao Setembro Amarelo a importância que ele precisa ter durante todo o ano.

Origem das recomendações de comunicação responsável
Primeiramente, devo dizer que, mesmo sendo casado com um jornalista, foi uma surpresa pra mim quando, em uma de nossas conversas para elaborar esse conteúdo, ele fez uma correção simples na primeira versão do texto. Nela, ele me explicou que, ao contrário do que eu pensava, a comunicação de suicídio no Brasil – e na maior parte do mundo – não é proibida.
“O que acontece é que desde 2000, a OMS orienta para que o jornalismo paute esse tema a partir do Manual para profissionais da mídia. E devido a regras rígidas e que exigem responsabilidade por cada ponto da notícia, a imprensa e seu senso de urgência cada vez maior, parece que prefere não falar a respeito.”
Wendell Soares – Jornaista e estrategista SEO/GEO
A Organização Mundial da Saúde atualizou, em 2023, seu material para profissionais da mídia. Em resumo, o documento reforça que reportagens podem contribuir para a prevenção ou ampliar riscos, dependendo da forma como são elaboradas, especialmente em ambientes digitais e redes sociais.
As discussões sobre esse impacto não são recentes. Por exemplo, em 1974, o sociólogo David Phillips formulou o conceito de Efeito Werther, associado à relação entre coberturas amplamente divulgadas e o aumento de comportamentos suicidas por imitação em algumas circunstâncias.

Da orientação à lei: As diretrizes que se tornaram passíveis de punição
É importante explicar que, parte do mito de que não pode haver comunicação de suicídio parece oriundo não apenas do silêncio da mídia como do risco criminal em casos irresponsáveis. Segundo o advogado Otto Godoi OAB 134 865 , “o art. 122 do Código Penal traz o assunto desde 1940, mas foi só em 2019 com a reformulação da lei, que se tornou mais claro o papel do jiornalismo a partir do efeito Werther.”
A Lei nº 13.968, de 2019, atualizou esse dispositivo e prevê situações agravadas quando essas condutas ocorrem por redes de computadores, redes sociais ou transmissões em tempo real. Isso não significa que toda notícia ou publicação inadequada seja automaticamente crime.
Otto completa, explicando que “a análise jurídica depende do caso concreto, incluindo conduta, intenção, contexto, consequências e possível vínculo com as hipóteses previstas em lei.”
Por isso, este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui orientação jurídica para situações reais.
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A comunicação de suicídio tem maior impacto no ambiente digital
Quando uma conduta relacionada ao suicídio ou à automutilação se enquadra nas hipóteses legais e ocorre por rede de computadores, rede social ou transmissão em tempo real, a legislação prevê aumento de pena. Também há previsão específica para quem lidera, coordena ou administra grupos, comunidades ou redes virtuais voltados a esse tipo de prática.
O ambiente digital exige atenção porque combina velocidade, repetição, permanência e alcance. Uma postagem pode ultrapassar rapidamente o público inicialmente imaginado. Por isso, comentários, compartilhamentos, vídeos e transmissões precisam fazer parte do cuidado editorial.
Lições históricas: exemplos de cobertura inadequada no Brasil
Ao longo do tempo, a imprensa brasileira protagonizou coberturas emblemáticas que exemplificaram a ausência dos critérios preventivos que hoje são crimes. Aliás, há casos notórios relativamente recentes, o que demonstra que, mesmo após tanto tempo, há um misto de irrersponsabilidade ao tratar o assunto.
Dentre os mais polêrmicos ou notadamente problermáticos, pode-se citar desde o tom romantizado com que a carta-testamento de Getúlio Vargas ganhou na época. E tem reflexo dessa forma até os dias de hoje. Ainda no campo político, a espetacularização e exploração exaustiva da morte do tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor, PC Farias (1996) teve contornos semelhantes.
Por sua vez, em 2023, outros dois casos ganham cobertura na imprensa que, claramente, aconteceu de modo contrário às recomendações legais (das quais irei aprofundar ao longo do texto). Em ambos, especulou-se a causa da morte de duas pessoas famosas de modo imediato e irresponsável.
Primeiro, com Champignon, baixista da banda Charlie Brown Jr e, dias depois, com a jogadora de vôlei da seleção brasileira Walewska Oliveira. Basta uma rápida busca por ambos em jornais e portais de fofocas ou notícias, que você encontrará explicações reducionistas – algumas sem qualquer contexto e elaboradas no mesmo dia em que as mortes ocorreram.
No caso de Waleswska, houve até publicação do boletim de ocorrência e outros documentos (alguns pessoais) que infrigiam questões legais de privacidade. Além, é claro, de descumprimento de regras jurídcas sobre como realizar a comunicação de suicídio.
Veja aqui as fotos chocantes da matéria acima

Por que a comunicação de suicídio exige responsabilidade extra
Até aqui, acredito que é possível entender o panorama que envolveu, ao longo das últimas décadas, a comunicação de suicídio pela imprensa. Ou mesmo a ausência dela. Contudo, é um tanto interessante notar quer, ao conferir as orientações da OMS – e as diretrizes legais da lei brasileira – me pareceu que a decisão da maior parte da mídia em não tocar no assunto é uma decisão um tanto controversa. Afinal, não me soa tão diferente às exigências do que ocorre, por exemplo, com outras pautas noticiosas.
Wendell levanta uma questão similar a isso, ao me dizer que “a grosso modo, o que o manual exigia, mesmo antes de consolidar uma lei, é aplicar a mesma prática que a mídia usa, por exemplo, para análise financeira, política, cultural. Já reparou que, nestes casos, sempre se convida um especialista?”
Ele completa: “E mais do que isso. Para embasar sua opinião, o especialista traz dados, análises fundamentadas e por aí vai. O que o manual já orientava sobre a comunicação de suicídio seguia a mesma linha: quer falar a respeito? Tenha um profissional de saúde mental qualificado para contextualizar o assunto.”
Em síntese, uma notícia pode cumprir função pública quando acrescenta contexto, evita sensacionalismo e orienta onde buscar ajuda.
Você clicou na notícia “chocante” acima?
Aqui não há julgamento. Apenas uma reflexão do quanto a nossa curiosidade pode nos levar a práticas que parecem inocentes, mas potencializam comportamentos nocivos.
Linguagem, vulnerabilidade e impacto: Efeito Werther e Papageno
O Conselho Federal de Psicologia (CFP) possui umna nota oficiual de 2021 que reforça exatamente as opiniões acima. Ou seja, ele também compreende que mensagens públicas afetam vulnerabilidades de formas distintas. Por isso, mantém em seu site o alerta de que “A exposição de casos de suicídio na mídia e nas redes sociais de forma sensacionalista pode ter efeitos prejudiciais à saúde mental”.
Em contrapartida, a ciência já comprovou que narrativas responsáveis de superação reduzem mortes. Por exemplo, em um estudo clássico de Gould na revista JAMA, derrubou-se o mito da indução ao concluir: “As descobertas sugerem que avaliar o suicídio não induz nem aumenta as ideias suicidas”.
Em resumo, na esfera privada, falar alivia. Contudo, na comunicação de massa, o CFP orienta cautela total.

O que pode ser comunicado com segurança
De modo geral, é possível explicar que o comportamento suicida é complexo. Isso porque crises podem mudar ao longo do tempo e, por mais que seja um padrão humano buscar respostas para tudo, não é possível analisá-lo de modo coletivo ou simplista. Afinal, até mesmo profissionais que lidam com estas questões, sabem que é preciso cautela para concluir motivações e impactos em questões de autoexterminío.

Critérios mínimos para uma abordagem segura
- Planeje título, imagem e legenda em conjunto.
- Revise o conteúdo pelo olhar de alguém em sofrimento, e não apenas pelo potencial de alcance.
- Consulte fontes confiáveis e profissionais qualificados.
- Modere comentários e remova incentivos, detalhes de métodos ou exposições pessoais.
- Mantenha informações de ajuda visíveis, corretas e atualizadas.
- Priorize prevenção, acolhimento, contexto e orientação prática.
O que evitar ao falar sobre suicídio
Evite detalhar método, local específico, cena, carta de despedida ou conteúdos publicados pela pessoa nas redes sociais. Isso porque esses elementos não tornam a informação mais educativa e podem aumentar o risco de imitação ou intensificar imagens invasivas durante uma crise.
Também evite romantização, simplificação e sensacionalismo. Ou seja, tratar a morte como descanso, reencontro, coragem ou resposta inevitável distorce a compreensão do sofrimento e pode tornar uma situação grave ainda mais vulnerável a interpretações prejudiciais.
Da mesma forma, atribuir uma morte a uma causa única reduz uma história complexa a uma explicação aparentemente confortável para quem observa, mas insuficiente e injusta para quem viveu aquela dor.
Cuidado clínico e comunicação pública de suicídio não deve diagnosticar causa
A Psicologia compreende que o sofrimento psíquico não tem uma causa única. Em resumo, mesmo quando existem circunstâncias recorrentes no cotidiano de uma pessoa, nenhum fator isolado deve ser usado como explicação total ou diagnóstico.
Pense, por exemplo, no cotidiano bancário. Pressão por metas, assédio, medo de demissão e endividamento podem fazer parte do contexto profissional de muitas pessoas do setor. Ainda assim, esses elementos, sozinhos, não permitem concluir qual é a condição de saúde mental de alguém nem explicar um comportamento que resulte em lesão ou morte.
Isso exige avaliação individual e qualificada. Na comunicação pública, reconhecer esse limite é parte do cuidado: contextualizar mais do que explicar, evitar conclusões fechadas e manter o compromisso de informar de modo socialmente responsável.

A responsabilidade de cada um ao tocar no assunto
É importante explicar que, se você não é jornalista, ainda assim responde pelo que compartilha. Isso porque um vídeo, um story ou um texto fora de contexto pode chegar a alguém em um momento frágil e amplificar a dor em vez de oferecer orientação. Por isso, mesmo que o contéudo seja só um comentário numa publicação ou um post compartilhamento em sua própria rede social, há cuidados a se tomar.
Sendo assim, prefira não repetir detalhes de método, local, cena ou mensagens deixadas pela pessoa. Também evite transformar o assunto em choque, debate de opinião ou tentativa de explicar uma história complexa com uma frase só.
- Verifique se a fonte é confiável.
- Veja se o conteúdo informa ou apenas expõe.
- Evite imagens, trechos e legendas que reforcem curiosidade nociva.
- Não marque familiares, amigos ou pessoas próximas.
- Por fim, se houver risco, o foco deve ser ajuda, não comentário.
Como comentar sem simplificar demais
Nem sempre quem comenta tem os elementos necessários para interpretar o que aconteceu. Por isso, cuidado com frases que apontam uma causa única, como se uma perda, uma dívida, uma demissão ou uma crise bastasse para explicar tudo.
Em vez de fechar questão, vale usar uma linguagem mais precisa: “há fatores que podem ter contribuído”, “não dá para concluir só por essa informação” ou “o caso exige mais contexto”.
Também é importante evitar romantização. Suicídio não é coragem, descanso ou resposta simples para sofrimento. A fala mais útil costuma ser a que preserva complexidade, reduz ruído e aproxima cuidado.
- Não diagnostique de longe.
- Não trate suposição como fato.
- Não use o caso para sustentar opinião pronta.
- Não compartilhe como quem comenta entretenimento.
- Se houver risco real, busque atendimento e apoio imediato.
Às vezes, o comentário mais responsável é o que não tenta preencher o que você não sabe.
O que fazer ao presenciar comunicação contrária à norma da lei brasileira
Se você encontrar uma comunicação que exponha sofrimento de forma inadequada, evite interagir. Afinal, curtidas, comentários e compartilhamentos podem ampliar a distribuição do conteúdo por meio dos algoritmos. A orientação de Otto é bem clara e sustenta que o procedimento correto é:
- Não interaja | Em síntese, evite curtir, comentar ou compartilhar conteúdos que exponham detalhes, imagens ou linguagem sensacionalista.
- Denuncie na plataforma | Para isso, utilize os recursos de denúncia disponíveis, especialmente em casos de conteúdo sensível, incentivo à automutilação ou risco de violência.
- Registre informações | Se houver indício de crime ou risco iminente, preserve links, perfis e registros necessários.
- Busque os canais adequados | Em situações que possam configurar crime, procure a delegacia competente, o Ministério Público ou os canais oficiais da plataforma.
- Priorize ajuda imediata | Por último, se uma pessoa estiver em risco, acione serviços de urgência e uma rede de apoio próxima.
Pa concluir, é possível denunciar em uma delegacia de crimes virtuais, no Ministério Público da sua cidade ou, caso prefira o anonimato, a ONG Safernet Brasil tem parceria com o MP Federal para denúncias de violação de diretos humanos na internet e crimes cibernéticos.

Na próxima semana
Após esse panorama incial que explicou sobre a comunicação de suicídio e os cuidados da mídia, o próximo conteúdo deste especial irá trazer uma reflexão sobre a relação da fé com sentimentos de pertencimento, culpa e autocuidado. Afinal, qual o impacto da religião na saúde – e adoecimento – mental de uma pessoa? E como as principais crençass enxergam o suicídio sob a ótica da religiosidade.
Até lá.
Perguntas frequentes sobre comunicação de suicídio
Fontes consultadas
Ministério da Saúde: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/suicidio
OMS: https://www.who.int/publications/i/item/9789240076848
NIMH: https://www.nimh.nih.gov/health/topics/suicide-prevention
NCBI: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5705425/
MiS Prevenção Suicídio: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/suicidio-prevencao
CRP – MG: https://crp04.org.br/crp-mg-atualiza-cartilha-sobre-publicidade-profissional
Psicólogo CRP 04/80909, atua há 15 anos no setor bancário e conhece de perto o peso de metas, KPIs e alta performance. Usa a TCC para ajudar bancários e profissionais a equilibrar ansiedade, pensamentos e desgaste emocional sem abrir mão dos resultados. Atendimento presencial em Belo Horizonte ou online em qualquer lugar do mundo.